Influências africanas no português sul-brasileiro: o campo da Religião e das Crenças nos dados do ALiB
DOI:
https://doi.org/10.35520/diadorim.2025.v27n2a68068Resumo
Este estudo analisa o léxico religioso na fala de 72 informantes naturais de 17 localidades do Estado do Rio Grande do Sul. Ao todo, o corpus analisado é composto por 666 registros provenientes das oito questões do campo Religião e Crenças do Questionário Semântico-Lexical (QSL) do projeto Atlas Linguístico do Brasil (ALiB): 147 [Diabo] Deus está no céu e no inferno está ______; 148 [Fantasma] O que algumas pessoas dizem já ter visto, à noite, em cemitérios ou em casas, que se diz que é do outro mundo?; 149 [Feitiço] O que certas pessoas fazem para prejudicar alguém e botam, por exemplo, nas encruzilhadas?; 150 [Amuleto] ... o objeto que algumas pessoas usam para dar sorte ou afastar males?; 151 [Benzedeira]... uma mulher que tira o mau-olhado com rezas, geralmente com galho de planta?; 152 [Curandeiro] ... a pessoa que trata de doenças através de ervas e plantas?; 153 [Medalha] ... a chapinha de metal com um desenho de santo que as pessoas usam, geralmente no pescoço, presa numa corrente?; 154 [Presépio] No Natal, monta-se um grupo de figuras representando o nascimento do Menino Jesus. Como chamam isso? Embora todas as questões tenham analisadas, a de número 149, dedicada ao item feitiço, constitui o foco principal da pesquisa por apresentar a maior produtividade de lexias de origem africana. A análise organiza-se em três eixos: i) descrição das variantes registradas, conforme os pressupostos da Dialetologia Pluridimensional (Thun, 1998) e da Sociolinguística (Labov, 2008 [1972]); ii) exame da dicionarização dos termos, com base em Houaiss (2001); e iii) identificação de possíveis crenças e atitudes linguísticas associadas às práticas religiosas afro-brasileiras. Os resultados comprovam a coexistência de 11 variantes para nomear feitiço, provenientes de matrizes distintas, especialmente latina e a africana, o que reflete a complexidade histórica do contato linguístico no português brasileiro. As formas de origem africana se encontram amplamente distribuídas pelo Estado, reforçando a centralidade das religiões afro-brasileiras na configuração sociocultural gaúcha. A dicionarização dos itens atestou que todos os vocábulos estão, em maior ou menor grau, associados ao campo da religiosidade ou do ocultismo, e revelou processos de ressemantização e extensão semântica, especialmente em termos como despacho, batuque e macumba. Já, a análise qualitativa de trechos das entrevistas apontou para sentimentos de medo, desconfiança e desprestígio em relação às práticas religiosas afro-brasileiras, revelando a persistência de preconceitos linguísticos e sociais no imaginário coletivo.
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