Do fascínio à aeropoesia
relatos da experiência do voo
DOI:
https://doi.org/10.55702/3m.v30i61.73785Palavras-chave:
Voo, Futurismo italiano, Aeropoesia, Poesia visualResumo
Este artigo explora o fascínio exercido pela experiência do voo, um desafio à limitação humana no espaço e no tempo que, desde a mitologia até à era espacial, tem inspirado a criatividade estética e literária. Analisando a literatura produzida no século XX, em particular a aeropoesia futurista italiana da década de 1930, o estudo examina a celebração técnica e a sua apropriação por ideários políticos da época, refletindo ainda sobre como a aviação transformou o imaginário contemporâneo. Através da análise de poemas visuais, investiga-se a relação entre o suporte, os processos de imaginação e a receção destes textos. Conclui-se que a aeropoesia transcende a mera representação de uma realidade em mudança, constituindo um contributo ativo para a conceptualização de uma nova experiência sensorial, em linha com uma nova ordem política.
O entusiasmo pelo voo, como desafio à limitação humana no espaço e no tempo, bem como pelos seus espaços-satélite, não está apenas relacionado com a experiência de viajar, da deslocação e do encontro cultural que daí pode resultar, mas implica também o maravilhamento perante a técnica em períodos de inovação, frequentemente ligados a agendas políticas. Um desses casos é a aeropoesia futurista italiana da década de 1930, uma celebração entusiástica da experiência de voar e da transformação que esta proporciona, conjugando o fascínio pela técnica como extensão do corpo com a apropriação simbólica desta conquista por uma agenda nacionalista e fascista.
Este artigo propõe uma leitura de poemas do futurismo italiano relacionados com o voo e a aviação, focando-se em particular nas diferenças entre a poesia verbal e a visual e na forma como o meio se relaciona com os processos de imaginação durante a leitura. Na medida em que a poesia visual combina elementos verbais e visuais, coloca em evidência a associação entre elementos simbólicos e imagens mentais, tal como foi concebida na produção e tal como é suscitada na receção destes poemas.
Neste sentido, esta aeropoesia não é apenas representação de uma realidade em mudança, mas é ela própria um contributo para a imaginação de uma nova experiência e, por ela, de uma nova ordem.
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