Escutar as ruínas: notas sobre práticas sonoras em contextos instáveis
DOI:
https://doi.org/10.60001/ae.n51.8Palavras-chave:
Escuta, Práticas sonoras, Ruína, Regeneração, AtençãoResumo
Este ensaio investiga a escuta como prática sensível e política em contextos marcados pela persistência da ruína, compreendida não como vestígio do passado, mas como condição ativa do presente. Parte-se da hipótese de que escutar implica organizar modos de atenção, presença e coexistência, a partir da qual o texto analisa duas proposições artísticas contemporâneas que se desenvolvem em registros distintos: a instalação Voar Doce Lar, de Rick Rodrigues e Lucas Martins (2022), e a prática de caminhadas sonoras Electrical Walks, desenvolvida por Christina Kubisch desde 2003. Sem estabelecer comparação direta entre as obras, o ensaio propõe um campo de ressonância no qual a escuta é pensada ora como prática de abrigo e sustentação de coexistências mínimas, ora como prática de revelação das infraestruturas técnicas invisíveis que organizam o espaço urbano. Ao articular essas duas abordagens, o texto recusa leituras restaurativas, solucionistas ou espetaculares da ruína e afirma a escuta como prática situada de atenção prolongada, capaz de sustentar relações possíveis em paisagens instáveis. O ensaio conclui em suspensão, defendendo a escuta como forma de implicação ética e política diante de um mundo que continua em funcionamento, apesar de fraturado.
Downloads
Referências
ABRAM, David. The spell of the sensuous: perception and language in a more-than-human world. New York: Vintage Books, 1997.
AKIRA, Rubens. Arte sonora e paisagem acústica. In: SANTAELLA, Lucia; ARANTES, Priscila (org.). Estéticas tecnológicas: novos modos de sentir. São Paulo: Educ, 2008.
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Trad. Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
CHION, Michel. A audiovisualização: som e imagem no cinema. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.
COCCIA, Emanuele. A vida das plantas: uma metafísica da mistura. Trad. Fernando Scheibe. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2018.
EASTERLING, Keller. Extrastatecraft: the power of infrastructure space. London: Verso, 2014.
HARAWAY, Donna. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno. Trad. Paula Fleisner e Leandro Durazzo. São Paulo: n-1 edições, 2016.
INGOLD, Tim. The perception of the environment: essays on livelihood, dwelling and skill. London: Routledge, 2000.
KUBISCH, Christina. Electrical Walks. Projeto artístico, desde 2003. Disponível em: https://electricalwalks.org. Acesso em 14 jan. 2026.
KUBISCH, Christina; PAUL, Frank; THIEL, Tom. Electrical Jubilee – Electrical Walks in the areas of S. Maria Maggiore and San Pietro. Roma, 2025. Vídeo (16’ 22”). Disponível em: https://electricalwalks.org/video/. Acesso em jan. 2026.
LABELLE, Brandon. Acoustic territories: sound culture and everyday life. New York: Continuum, 2010.
NANCY, Jean-Luc. À escuta. Trad. Fernanda Bernardo. Belo Horizonte: Chão da Feira, 2014.
RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Trad. Mônica Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2009.
RODRIGUES, Rick; MARTINS, Luccas. Voar doce lar: catálogo da instalação. Vila Velha: Parque Cultural Casa do Governador, 2022.
STENGERS, Isabelle. No tempo das catástrofes: resistir à barbárie que se aproxima. Trad. Eloisa Araújo Ribeiro. São Paulo: Cosac Naify, 2015.
TSING, Anna Lowenhaupt. O cogumelo no fim do mundo: sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. Trad. Alexandre Barbosa de Souza. São Paulo: n-1 edições, 2019.
VOEGELIN, Salomé. Listening to noise and silence: towards a philosophy of sound art. New York: Continuum, 2010.
Downloads
Publicado
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2026 Arte & Ensaios

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License. Autores que publicam nesta revista concordam com os seguintes termos:
- Autores mantém os direitos autorais e concedem à revista o direito de primeira publicação, com o trabalho simultaneamente licenciado sob a Licença Creative Commons Attribution que permite o compartilhamento do trabalho com reconhecimento da autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm autorização para assumir contratos adicionais separadamente, para distribuição não-exclusiva da versão do trabalho publicada nesta revista (ex.: publicar em repositório institucional ou como capítulo de livro), com reconhecimento de autoria e publicação inicial nesta revista.
- Autores têm permissão e são estimulados a publicar e distribuir seu trabalho online (ex.: em repositórios institucionais ou na sua página pessoal) a qualquer ponto antes ou durante o processo editorial, já que isso pode gerar alterações produtivas, bem como aumentar o impacto e a citação do trabalho publicado (Veja O Efeito do Acesso Livre).