Deriva numa paisagem em ruínas: coexistências possíveis entre humanos e não-humanos

Autores

DOI:

https://doi.org/10.60001/ae.n51.13

Palavras-chave:

Ruínas às avessas, Fotografia, Entropia, Paisagens multiespécies, Deriva

Resumo

O artigo apresenta a série fotográfica Coleção de Desperdícios, desenvolvida a partir de uma deriva realizada na ilha do Fundão, no Rio de Janeiro, durante o ciclo de estudos “E lá no Fundão, o que é que tem?”, promovido pelo grupo Humusidades e pelo coletivo Terra Batida. Partindo dos “esqueletos arquitetônicos” que persistem na paisagem universitária, o texto investiga como resíduos industriais, ferrugens, sedimentos, organismos marinhos e vegetações espontâneas configuram paisagens em constante transformação. Em diálogo com Robert Smithson, especialmente com as noções de entropia e de “ruínas às avessas”, propõe-se compreender essas estruturas não apenas como testemunhos de projetos interrompidos, mas como expressões da própria lógica moderna, nas quais construção e decomposição coexistem desde o princípio. Ao mesmo tempo, em aproximação com Anna Tsing, Tim Ingold e Bruno Latour, o artigo sugere que tais ruínas constituem paisagens multiespécies, abertas à emergência de novas formas de vida e de coexistência. A deriva é compreendida como prática estética capaz de produzir leituras sensíveis do território, enquanto a fotografia é entendida não como mera documentação, mas como dispositivo indicial que torna visíveis diferentes temporalidades inscritas na matéria. A partir da análise formal de sete imagens da série, argumenta-se que Coleção de Desperdícios desloca a ruína de uma categoria nostálgica para uma condição ecológica contemporânea, revelando que os vestígios da modernidade podem constituir, simultaneamente, ruínas entrópicas e suportes para novas configurações multiespécies.

Downloads

Não há dados estatísticos.

Biografia do Autor

Lia Maestrelli Bizzo, Universidade Federal de Santa Catarina

É arquiteta, artista e pesquisadora. Mestra em arquitetura pela UFRJ, Proarq, com a dissertação Aterramentos performativos: a arte como meio por uma ecologia da arquitetura. Atualmente doutoranda no PosArq, UFSC, e integrante do Grupo Quiasma: estudos e pesquisas interdisciplinares em arquitetura, corpo e cidade (ARQ/UFSC).

Referências

BARROS, Manoel de. O apanhador de desperdícios. In: Memórias inventadas – a infância. São Paulo: Editora Planeta, 2003.

CARERI, Francesco. Walkscapes: o caminhar como prática estética. São Paulo: G. Gili, 2013.

CRIST, Eileen. O mal-estar do Antropoceno: rumo ao Chtuluceno? A pobreza da nossa nomenclatura. In: MOORE, Jason W. (org.). Antropoceno ou Capitaloceno?: natureza, história e a crise do capitalismo. São Paulo: Elefante, 2022, p. 35-58.

GUATTARI, Félix. As três ecologias. 2. ed. Campinas: Papirus, 1990.

INGOLD, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 18, n. 37, p. 25-44, jan./jun. 2012. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4886677/mod_resource/content/1/Ingold_Trazendo_as-coisas-para-a-vida.pdf. Acesso em set. 2025.

JACQUES, Paola Berenstein (org.). Novas derivas. Salvador: Edufba, 2012.

JACQUES, Paola Berenstein. Apologia da deriva: escritos situacionistas sobre a cidade. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.

KRENAK, Ailton. A vida não é útil. Org. Rita Carelli. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

LATOUR, Bruno. Políticas da natureza: como associar as ciências à democracia. Trad. Carlos Aurélio Mota de Souza. São Paulo: Editora Unesp, 2019.

SMITHSON, Robert. Um passeio pelos monumentos de Passaic. In: COTRIM, Cecília; FERREIRA, Glória (org.). Escritos de artistas: anos 60/70. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. p. 182-197.

TSING, Anna Lowenhaupt. Viver nas ruínas: paisagens multiespécies no Antropoceno. Brasília: IEB Mil Folhas, 2019.

Downloads

Publicado

10-09-2026