PREDADOR CARISMÁTICO, INVASOR PROBLEMÁTICO: A DIMENSÃO HUMANA NO MANEJO DO SALMINUS BRASILIENSIS NA BACIA DO IGUAÇU, SUL DO BRASIL
Carisma e invasão: o caso do dourado no Iguaçu
Abstract
A translocação de espécies não nativas tem representado desafios à conservação, sendo frequentemente negligenciada pelas esferas econômicas, políticas e sociais. A sociedade pode comprometer medidas de manejo, especialmente quando as espécies são consideradas emblemáticas e carismáticas. No sul do Brasil, a bacia do rio Iguaçu constitui uma região de elevado endemismo, entretanto, a presença do peixe dourado (Salminus brasiliensis), um predador não nativo, representa riscos ambientais, econômicos, socioculturais e políticos. Apesar disso, diferentes segmentos da sociedade local tendem a interpretar de forma divergente os impactos associados à invasão desse predador. Objetivou-se analisar as percepções sobre a natividade, invasão e impactos de S. brasiliensis, além de investigar a valorização sociocultural da pesca de espécies endêmicas ou não, avaliando o consumo de peixe local. Entre setembro de 2024 e março de 2025, foram aplicados questionários nas cidades de União da Vitória (PR) e Porto União (SC). Coletaram-se 234 respostas de quatro grupos: população, pescadores, lojistas e poder público. A maioria dos entrevistados identificou corretamente S. brasiliensis como não nativa da bacia do rio Iguaçu. No entanto, houve divergência entre os grupos quanto ao reconhecimento dos impactos sobre a ictiofauna nativa. A pesca, o consumo e os eventos culturais ligados às espécies endêmicas foram reconhecidos como patrimônio histórico regional. Ainda assim, houve confusão na identificação da natividade de algumas espécies da bacia. Em relação ao consumo de pescado, o lambari foi preferido enquanto o dourado apresentou rejeição. Os resultados demonstram que as percepções sociais sobre conservação são moldadas por fatores diversos. Destaca-se a importância de se considerar a dimensão social nas estratégias de controle de espécies invasoras e a urgência de políticas integradas.