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Decolonialidade, Brasil e filosofia política global – Quem tem medo das filosofias decoloniais e contracoloniais?
v. 6 n. 1 (2026)A primeira edição da READ de 2026 surge celebrando a nossa integração ao GT Filosofia e Raça da ANPOF e esperamos ter vida longa nessa parceria antirracista.
Este número é lançado no contexto de mais uma guerra neocolonialista patrocinada por EUA e Israel, países governados por racistas, militaristas, igrejistas, homofóbicos, misóginos e autoritários. Esses mesmos países já patrocinaram o extermínio do povo palestino, invadiram a Venezuela e agora é a vez do Irã. Quem será a próxima vítima do neocolonialismo?
No Brasil, quase simultaneamente ao carnaval — a mais expressiva manifestação decolonial e contracolonial do planeta — e em meio ao avanço da extrema direita no cenário internacional, alguns intelectuais marxistas decidiram dirigir ataques às cosmovisões decoloniais e contracoloniais. O debate, em si, não constitui um problema. A questão central é que uma parcela da esquerda marxista, majoritariamente branca, tornou explícita sua posição ao criticar justamente as perspectivas que colocam a questão racial no centro das análises.
O mais estarrecedor é assistir a julgamentos sem o devido conhecimento das bases teóricas e práticas que constituem o pensamento que criticam. Esquerda e direita se alinharam mais uma vez para impedir o avanço das propostas autônomas mais populares.
Diante desse cenário, a pergunta que se coloca é: por que temem a decolonialidade e a contracolonialidade? Suas objeções revelam, em grande medida, uma resistência ao protagonismo negro e indígena na produção de conhecimento e na desconstrução das hierarquias raciais e culturais que sustentam a modernidade.
Para a direita, o racismo é reduzido a “mimimi” e, para a esquerda marxista, o mais importante é a luta de classes. Mas em que consiste o pensamento decolonial e contracolonial?
O pensamento decolonial emergiu na década de 1990. Seus principais autores — Quijano, Lander, Mignolo, Catherine Walsh, Grosfoguel, entre outros — desenvolveram teorias críticas voltadas à contestação das epistemologias eurocêntricas, propondo uma reflexão profunda a partir da diversidade étnica, em oposição ao epistemicídio e à colonialidade do poder e do saber. O texto fundador da rede de intelectuais foi o de Aníbal Quijano: “América Latina, eurocentrismo e colonialidade do poder.” Quijano foi um marxista peruano que seguia a perspectiva de Mariátegui e se organizou em grupos clandestinos revolucionários pela revolução socialista.
Já o pensamento contracolonial nasceu das interações sociais de um negro, nordestino, quilombola, que trabalhou como ajudante de pedreiro e morou em favelas do Rio de Janeiro e ajudou a organizar as lutas por terras no Nordeste. Ele foi um dos mais profundos defensores das organizações, resistências e culturas dos quilombos no Brasil.
O que os marxistas ignoram é que a perspectiva decolonial nasce como filha do marxismo, mas não dependente dele, e preenche uma das principais lacunas da filosofia marxiana, pois coloca a discussão da questão racial no centro do debate. Já a cosmovisão contracolonial nasce de um afrodescendente que afirma nunca ter sido colonizado, junto com seu povo, e que trava uma guerra de denominações contra o eurocentrismo, do qual Marx é produto e produtor.
Dito isso, as perspectivas decolonial e contracolonial surgem exatamente para valorizar as cosmovisões indígenas e negras da América Latina. Ao contrário de Marx, elas não dão centralidade para o proletariado industrial como único agente revolucionário e legítimo da revolução socialista.
As cosmovisões decoloniais e contracoloniais convocam à abertura para a diversidade epistêmica e para a construção de um mundo pluriversal. No caso das perspectivas decoloniais, essa pluriversalidade emerge dos saberes produzidos na América Latina; já no pensamento contracolonial, ela se enraíza nos conhecimentos quilombolas, das aldeias e das favelas. Nesse cenário, ambas as formas de pensamento se afirmam como expressões de resistência ao sistema colonial e a toda a sua herança — aquilo que chamamos de colonialidades. Assim, ser decolonial ou contracolonial não se restringe ao campo acadêmico ou teórico. Pelo contrário, essas perspectivas exigem compromisso com as lutas populares e com a superação de todas as formas de exclusão e discriminação impostas pelo colonialismo.
O que os críticos não entenderam é que as perspectivas decoloniais e contracoloniais, obviamente, são anticapitalistas. Trata-se de uma luta de corpos que resistem ao colonialismo e à colonialidade desde 1492. Essas cosmovisões buscam promover uma confluência, para usar os termos de Nego Bispo, entre diferentes matrizes de saber do nosso povo, sem ser nacionalista. Isso é revolucionário porque não desmerece as nossas formas de trabalho como determinantes para se pensar a superação de todo o sistema.
As perspectivas decolonial e contracolonial apresentam múltiplas vertentes, assim como ocorreu com o marxismo após Marx. No entanto, se o marxismo se caracteriza pela centralidade da luta de classes como motor da história e pela compreensão de que o operariado é o sujeito revolucionário, para nós é fundamental recolocar no centro do debate aquilo que, no Brasil, produz morte física e psicológica diariamente: o racismo. Assumir a discussão racial como eixo estruturante, denunciando as diversas formas de subalternização impostas a indígenas e negros nas Américas, seguirá sendo nossa principal contribuição.
Para concluir, observa-se que tais objeções marxistas às contribuições decoloniais e contracoloniais acabam por abrir espaço para a reafirmação do racismo epistêmico, funcionando como resistência a qualquer possibilidade de protagonismo negro e indígena na produção de conhecimento e na desconstrução das hierarquias raciais e culturais que sustentam a modernidade/colonialidade. Esse cenário evidencia o quanto o marxismo ainda necessita passar por um processo de descolonização. Em momento oportuno, pretendemos organizar um dossiê dedicado exclusivamente a essa temática. A seguir, apresentamos os artigos que compõem este número.
O primeiro artigo desta edição, intitulado O racismo institucional dos espíritos cativos: devotos do Estado e da Igreja, de autoria da professora doutora Pamela Cristina de Gois, articula precisamente elementos da filosofia ocidental, especialmente a partir do pensamento de Nietzsche, com reflexões da filosofia política e decolonial libertária. O texto realiza uma análise aprofundada das problemáticas que envolvem o Estado e a Igreja enquanto instituições forjadas no contexto da colonização.
Em Feminização política e confederalismo democrático: práticas de resistência em Rojava, André Vianna Nascimento, Paulo Edgar da Rocha Resende e Dominique Silva Zóboli, examinam como o protagonismo feminino e o confederalismo democrático têm transformado profundamente a organização social de Rojava. A partir das noções foucaultianas de resistência, os autores mostram como coletivos de mulheres desafiam o patriarcado e o Estado-nação, constituindo uma experiência singular de democracia radical.
Andréa Rocha dos Santos, doutoranda em direito, em O letramento racial a partir das reflexões de Lélia Gonzalez, discute as contribuições de Lélia Gonzalez, os limites do feminismo tradicional e o papel central das mulheres negras na luta por dignidade e reconhecimento. O texto enfatiza ainda a relevância do movimento negro, das políticas afirmativas e da valorização da cultura afro‑brasileira na construção identitária.
A colonialidade do saber na sociologia brasileira: eurocentrismo, Freyre e Fernandes e a dependência epistemológica, de Heitor Claro da Silva, mestre em ciências sociais, analisa como estruturas eurocêntricas moldaram a sociologia produzida no país. O autor examina Freyre e Fernandes à luz do pensamento decolonial, identificando tensões entre dependência e apropriações criativas do cânone europeu.
Daniel Rocha Monteiro, em Racismo algorítmico e saúde mental: breves reflexões sobre o sofrimento psíquico de sujeitos acometidos pela discriminação racial‑algorítmica, discute como tecnologias treinadas com dados enviesados reproduzem e intensificam violências raciais. O autor analisa os impactos desse processo na subjetividade e na saúde mental de pessoas negras, destacando a construção de imaginários negativos e o dano à autoestima.
Amanda Rech Brands, em A educação de Élisée Reclus: aspectos anarquistas para se pensar o ensino de Geografia, analisa as contribuições educacionais do geógrafo anarquista Élisée Reclus. A autora destaca sua defesa de uma educação libertária, não opressiva e centrada na autonomia dos estudantes. O texto mostra como esses princípios podem inspirar práticas críticas e socialmente engajadas no ensino contemporâneo de Geografia.
Por fim, Jose Isavam Oliveira Silva e Juliana Faltz Taborelli, em Estudantes pretos e o Programa de Intercâmbio MT no Mundo, analisam que critérios de seleção baseados em desempenho e proficiência em inglês reforçam desigualdades raciais já existentes. Os autores defendem políticas afirmativas e práticas educacionais antirracistas para garantir acesso equitativo à mobilidade acadêmica.
Boa leitura!
Pamela Cristina de Gois
Wallace de Moraes
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NAS MARGENS DO SISTEMA OPRESSOR, RACISTA, SEXISTA, CLASSISTA E ESTADOLÁTRICO
v. 5 n. 2 (2025)Iniciamos este editorial em meio ao refluxo de uma maré que, por um tempo, pareceu inescapável. A ascensão global de uma direita autoritária, militarista, igrejista e estadolátrica, cuja face mais espetacular talvez tenha sido a de Donald Trump, não representou uma anomalia, mas sim a condensação grotesca e transparente de lógicas imperialistas, coloniais e patriarcais que sempre estruturaram o Estado capitalista moderno. O seu governo foi a hipérbole de um projeto de dominação, e seu apoio explícito a figuras como Jair Bolsonaro no Brasil selou uma internacional do ressentimento, um eixo transnacional dedicado a aprofundar a guerra contra os povos, os corpos e os territórios dissidentes. Essa aliança não foi um mero acordo político, mas a sincronia de projetos necrofílicos colonialistas outrocidas que se alimentam mutuamente do medo, da desinformação e da violência como método.
No cenário brasileiro, assistimos recentemente ao irônico espetáculo do Leviatã se voltando contra uma de suas criaturas mais ruidosas. A “casa caiu” para o bolsonarismo nos tribunais superiores, num enredo que beiraria o cômico, não fosse trágico. Contudo, longe de celebrarmos as estruturas coercitivas do Estado ou acreditarmos em sua súbita conversão à justiça, uma perspectiva anarquista e decolonial nos obriga a analisar essa movimentação com ceticismo crítico. O que vemos não é o triunfo da democracia, mas a autoproteção de um sistema que percebeu um de seus agentes ameaçar o pacto de dominação da elite que ele próprio deveria servir. A repressão seletiva que hoje atinge um ex-presidente amanhã pode, como sempre, se voltar contra os movimentos sociais e todos que desafiam a ordem. Essa mesma ordem não deixa de atentar um segundo contra afro-pindorâmicos. A questão fundamental, portanto, permanece: como desmantelar as lógicas que produzem tanto os Bolsonaros quanto os sistemas que, eventualmente, os descartam para garantir a própria sobrevivência?
Ao final, a lição que se impõe é a de que a derrota eleitoral ou judicial de um governante não significa a superação das lógicas que o produziram e o sustentaram. O fascismo, o colonialismo e o autoritarismo são espectros que assombram a estrutura do Estado e que encontram terreno fértil no imaginário social. Portanto, enquanto as instituições do poder continuarem a operar sua pedagogia da obediência, nosso trabalho de afiar as ferramentas críticas e cultivar práticas de liberdade radical se torna não apenas relevante, mas vital. Que os textos deste volume sirvam de inspiração e provocação para seguirmos na construção de outras políticas e, finalmente, outros mundos.
É precisamente na intersecção dessas críticas radicais — à dominação estatal e à colonialidade que a produz — que a Revista de Estudos Anarquistas e Decoloniais busca situar sua contribuição. A análise desses fenômenos políticos não pode se restringir à superfície, devendo alcançar as raízes da produção de subjetividades dóceis e da legitimação da violência. Por isso, este volume se debruça sobre um campo estratégico: a Psicologia e suas interfaces com o pensamento libertário.
Destarte, a presente edição da revista Estudos Anarquistas e Decoloniais reúne um conjunto de reflexões críticas que articulam epistemologias insurgentes, práticas educativas de resistência e denúncias contundentes contraestruturas coloniais, racistas e sexistas e Estadolátricas ainda vigentes. Os artigos aqui apresentados oferecem contribuições relevantes para os campos da psicologia, educação, política, cultura e direitos humanos, a partir de perspectivas decoloniais, contra-coloniais e anarquistas. Vamos a eles.
O artigo de abertura, intitulado “Anarquismo da Subjetividade” de Saul Newman: A Subjetividade Pós-Anarquista, de autoria de Ricardo Mendes Mattos, Doutor em Psicologia Social, propõe uma análise teórica sobre o conceito de subjetividade no pós-anarquismo. O autor critica a noção de subjetividade essencialista presente no anarquismo clássico e defende uma subjetividade insurreta, criativa e em constante reinvenção, articulada à ação coletiva e à ontologia anarquista. A Psicologia é apontada como campo fértil para aprofundar tais discussões.
Em Reflexões Decoloniais para Atuação de uma Clínica Psicológica Antirracista: cartografia de um cotidiano, de Diogo Fagundes Pereira, Doutor em Educação, Mestre em Psicologia, Psicólogo Clínico e Pedagogo, e Mariana Felippe Barenco Dorta da Silva, psicóloga, o racismo é compreendido como algo estrutural que atravessa a clínica psicológica e afeta a saúde mental da população negra. A pesquisa cartográfica revela lacunas na formação dos profissionais e propõe uma atuação antirracista nessa área do conhecimento tão valiosa para a população negra.
Na sequência, Abel Calombo Quijila, doutorando em educação, apresenta o artigo África entre independência e dependência: Neocolonialismo e o impacto geopolítico dos discursos das lideranças insurgentes africanas no século XXI, no qual examina o neocolonialismo como mecanismo de dominação contínua no continente africano. A pesquisa destaca a revolução sociopolítica no Sahel e defende o engajamento da juventude e da diáspora africana nos ideais do panafricanismo como caminho para a reconstrução da soberania.
Bruno Costa, doutorando pela Universidade de Coimbra, contribui com o artigo Sionismo como Colonialismo de Povoamento: Modernidade ocidental e direitos humanos, que propõe uma leitura crítica do sionismo como expressão colonial da modernidade ocidental. A partir de uma abordagem transdisciplinar, o autor evidencia como hierarquias raciais e epistemológicas sustentam práticas de exclusão e silenciam discursos de direitos humanos.
O artigo Epistemologia Periférica de Libertação: Racionais MC’s e a Cultura de Luta Antirracista nas Periferias Brasileiras, de autoria de Melina Rocha, doutoranda pela UFMG, propõe uma análise crítica da produção político-artística dos Racionais MC’s como expressão de saberes insurgentes. O estudo reconhece os Racionais como intelectuais orgânicos das periferias urbanas, cuja obra contribui para a valorização dos saberes marginalizados e para a construção de uma pedagogia decolonial. Trata-se de uma contribuição relevante para os debates sobre justiça racial, educação crítica e cultura de luta.
Lucas M. Lessa, mestre em Filosofia pela UFES, em seu artigo Ainda sobre Junho de 2013: Uma Oportunidade Perdida?, revisita as manifestações populares d0 período das manifestações de 2013, propondo uma leitura alternativa que destaca o potencial emancipatório das insurgências, frequentemente ignorado pelas interpretações hegemônicas.
Luiza Rodrigues Gomes, graduanda em Psicologia e pesquisadora da UFRJ, em seu artigo Transformando Espaços, denuncia o silenciamento histórico-epistêmico de sujeitos racial e economicamente marcados no sistema educacional brasileiro. Fundamentado em autores como Cida Bento, Achille Mbembe e Paulo Freire, o estudo propõe uma pedagogia decolonial e plural. A educação é apresentada como ferramenta de resistência e reconstrução identitária. Uma leitura potente e necessária.
Convidamos leitoras e leitores a mergulharem nas páginas desta edição, que reafirma o compromisso da revista com a crítica radical e a construção de saberes libertários. Boa leitura!
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REFLEXÕES ANARQUISTAS E DECOLONIAIS NA CONSTRUÇÃO DE RESISTÊNCIAS
v. 5 n. 1 (2025)Caros leitores, pesquisadoras e pesquisadores,
É com grande satisfação que apresentamos mais uma edição da Revista Estudos Anarquistas e Decoloniais, trazendo reflexões profundas e críticas sobre temas essenciais para a compreensão das estruturas de poder, exclusão e resistência no mundo contemporâneo.
Nesta edição, reunimos uma seleção de artigos que abordam racismo institucional, decolonialidade, epistemologias contra-hegemônicas, municipalismo libertário e ecologia social, entre outros temas fundamentais para quem busca repensar a sociedade a partir de perspectivas insurgentes. Com um compromisso contínuo com o pensamento crítico, os textos aqui apresentados não apenas desafiam as narrativas dominantes, mas também ampliam o horizonte de luta por equidade e justiça.
A presente edição apresenta a pesquisa de Catarina dos Santos Vitorino de Oliveira e Mariana de Sá Alcantara Gomes, A Inacessibilidade de um Currículo Embranquecido na Formação de Alunados Negros: Perspectiva de Crianças e Jovens em Idade Escolar do Projeto Esperançar, que traz uma reflexão urgente e necessária sobre a inacessibilidade de um currículo eurocentrado para estudantes negros. O artigo investiga como a ausência de epistemologias negras nos espaços educacionais contribui para o apagamento histórico e simbólico de saberes fundamentais, refletindo diretamente na formação das novas gerações.
Já o artigo Formação Antirracista: Reflexões para Descolonizar os Currículos das Graduações do Campo da Saúde, de Camille Correia Santos, aborda a urgência de uma formação antirracista na área da saúde, destacando como a estrutura acadêmica perpetua desigualdades ao manter currículos eurocentrados que invisibilizam conhecimentos afro-brasileiros e indígenas. A autora apresenta um panorama dos desafios enfrentados por estudantes negros no ensino superior e questiona a ausência de conteúdos sobre raça e racismo nos cursos de saúde, evidenciando a necessidade de uma transformação curricular alinhada às epistemologias decoloniais.
Em A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água: Uma Crítica ao Cânone Filosófico, Pedro Bisneto explora a relação entre filosofia e morte, desafiando a tradicional aproximação entre filosofia e vida. A partir de reflexões pessoais e experiências marcadas pelo temor da finitude, o autor propõe uma crítica ao cânone filosófico, questionando as narrativas que vinculam a filosofia exclusivamente à dignidade humana e à vida. Com uma abordagem profundamente pessoal e filosófica, o texto convida o leitor a repensar os limites e as contradições da filosofia frente à morte.
No artigo O Pensamento de Murray Bookchin e a Trajetória do Povo Curdo: A Ecologia Social e o Municipalismo Libertário na Visão de Abdullah Öcalan e Seu Legado na Região Autônoma de Rojava – Curdistão, Roberto Medeiros investiga a influência das ideias de Murray Bookchin no pensamento e na atuação política de Abdullah Öcalan, destacando como os conceitos de ecologia social e municipalismo libertário moldaram o projeto político curdo na Região Autônoma de Rojava. A partir da análise do Confederalismo Democrático, o autor explora o impacto das teorias de Bookchin na resistência curda e na construção de alternativas ao Estado-nação, evidenciando um modelo autônomo baseado na democracia radical e na sustentabilidade.
Em A Gente Aparece nas Histórias que Conta: Narrativas e Potência Descolonial, Julia Bardi reflete sobre a importância da narrativa e da oralidade como caminhos para a construção de epistemologias alternativas ao eurocentrismo. A autora argumenta que os relatos históricos não são universais e destaca a necessidade de reconhecer referenciais e experiências marginalizadas, ampliando as possibilidades de representação e existência. Com base no pensamento decolonial e na Pedagogia da Mãe Terra de Abadio Green, o texto propõe uma crítica à colonialidade do saber, mostrando como a oralidade pode resgatar memórias e fortalecer identidades.
Em O Racismo na Sala de Aula e a Lei 11.645/2008, Tiago Nicolau da Silva investiga como o racismo estrutural se manifesta no ambiente escolar e a importância de sua abordagem para transformar a educação em um espaço verdadeiramente inclusivo. A partir da análise da Lei 11.645/2008, que determina o ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena, o autor questiona a persistente exclusão dos saberes negros nos currículos escolares, destacando a urgência de um giro epistemológico para promover a valorização de narrativas historicamente silenciadas.
Já em A (Des)umanização do Corpo Negro: Saúde e Discussões Étnico-Raciais, Ana Carolina dos Santos da Silva examina a histórica desumanização do corpo negro, enfatizando como o racismo estrutural molda o acesso à saúde e perpetua desigualdades. A pesquisa destaca o apagamento dos saberes negros, o impacto do racismo institucional e os traumas intergeracionais que afetam o bem-estar da população negra. Além disso, discute racismo ambiental, saúde reprodutiva e epistemologias decoloniais, sugerindo caminhos para um sistema de saúde antirracista. A análise busca ampliar o debate sobre equidade e justiça na saúde pública, promovendo conscientização e mudanças estruturais.
Em Existir e Resistir: A Historicidade da “Améfrica Ladina” nos Currículos, Lucas Lentini explora as heranças da colonialidade e como elas moldaram os currículos educativos, perpetuando valores eurocêntricos, patriarcais e cristãos-ocidentais. O autor analisa a construção histórica do conceito de raça e sua relação com a modernidade, destacando como a colonização impôs narrativas hegemônicas que apagaram o protagonismo das minorias. O texto propõe a desconstrução desses paradigmas por meio da história cultural, repensando os currículos para incluir perspectivas de resistência e diversidade, especialmente no contexto da Améfrica Ladina.
Nesta tradução do texto de Leda Rafanelli, Contra a Escola, realizada por Caio Cursini, somos conduzidos a uma crítica contundente ao papel da escola como instrumento de reprodução ideológica e controle social. A autora questiona como o ensino obrigatório molda mentalidades desde a infância, reforçando valores da classe dominante e apagando visões críticas e progressistas. Rafanelli propõe que, em vez de reformar as instituições educacionais, é preciso pensar a formação de indivíduos livres e rebeldes, longe das estruturas que perpetuam desigualdades e dogmas.
Esta edição conta com a valiosa contribuição de autoras e autores comprometidos com a crítica ao sistema vigente—racista e sexista—e com a construção de novas possibilidades de existência e convivência.
Pamela Cristina de Gois
Boa leitura e resistência!
Atenciosamente, Equipe da Revista Estudos Anarquistas e Decoloniais
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IDENTIDADES E RESISTÊNCIAS: ANÁLISES CRÍTICAS LIBERTÁRIAS E DECOLONIAIS SOBRE CORPO, CULTURA E SOCIEDADE
v. 4 n. 2 (2024)É com grande satisfação e orgulho que anunciamos mais uma edição da Revista de Estudos Anarquistas e Decoloniais (READ), uma publicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nesta edição, trazemos uma rica coletânea de artigos e ensaios que exploram temas centrais para o pensamento libertário e decolonial, abordando questões contemporâneas e históricas com profundidade e rigor acadêmico.
No primeiro artigo da revista, intitulado “DESCOLONIZANDO O CORPO: OLHARES, CONCEITOS E PERSPECTIVAS”, o médico homeopata Renato Sampaio de Azambuja aborda a definição histórica do corpo biológico e suas relações com estratégias de dominação colonialista, destacando a importância de reconhecer e resistir ao poder da colonialidade. Ele também discute a descolonização do corpo, integrando conhecimentos indígenas e o conceito de "Corpo sem Órgãos" de Deleuze e Guattari. O autor, a partir de uma perspectiva de práticas integrativas, propõe uma narrativa descolonial para compreender o corpo em múltiplas perspectivas e resistir à objetividade imposta pelo colonialismo.
Em “A CRÍTICA BOOKCHINIANA AO MARXISMO: O QUE SE DEVE PRESERVAR E O QUE SE DEVE SUPERAR”, Arthur Guimarães de Oliveira Castro, mestre em Ciências Sociais, apresenta uma análise abrangente das críticas de Murray Bookchin ao marxismo. Bookchin, inicialmente marxista, evoluiu sua visão ao longo do tempo, destacando a necessidade de uma nova teoria revolucionária que preservasse os elementos positivos do marxismo e superasse os aspectos desatualizados. O autor explora as três principais críticas de Bookchin: o etapismo histórico, a definição do proletariado industrial como classe revolucionária e a centralização estatal. A pesquisa contextualiza as mudanças nas críticas de Bookchin ao marxismo, especialmente após a crise do socialismo real nos anos 90, oferecendo uma visão profunda e crítica sobre o pensamento do teórico libertário.
Thaíssa Macêdo dos Santos, graduanda do curso de Ciências Sociais, EM “A ESTÉTICA DA BRANQUITUDE E A IMPORTÂNCIA DAS REPRESENTAÇÕES DE PESSOAS NEGRAS NO AUDIOVISUAL”, discute como a ideologia do branqueamento no audiovisual brasileiro resultou em uma estética da branquitude, influenciando a representação de pessoas negras nas mídias. Analisam-se estereótipos e obras significativas que perpetuam essas representações, bem como textos sobre colonialidade e cultura. Em resposta, destacam-se filmes do Cinema Negro Brasileiro que ressignificam a representação negra nas telas. O estudo enfatiza a importância de produções audiovisuais para moldar percepções sociais e promover narrativas humanizadoras.
Matheus Teixeira, graduando em filosofia (UFRJ), no artigo INTITULADO “ÉDOUARD GLISSANT: O IMPREVISÍVEL COMO RESULTADO DA RELAÇÃO”, se propõe a explorar os ecos do Surrealismo Antilhano através da obra do filósofo, poeta e romancista martinicano Édouard Glissant. A pesquisa foca nas suas interações com pensadores como Frantz Fanon, Deleuze e Guattari, e suas experiências anticoloniais ao lado de Aimé Césaire. O estudo visa compreender o conceito de Crioulização de Glissant e sua Estética da Diversidade, enfatizando como essas ideias influenciam material e subjetivamente o povo martinicano. A análise destaca a importância de um pensamento relacional e rizomático para entender a dinâmica cultural e a resistência ao colonialismo.
Em “PARTEIRAS E CURANDEIRAS: RESGATE ANCESTRAL DO CORPO FEMININO E SUA RELAÇÃO COM A NATUREZA”, Maria Clara Piloto Pereira, bacharel em história pela UFRJ, revela a profunda interconexão entre as práticas de cuidado e cura das parteiras e curandeiras com a natureza, destacando sua resistência às imposições coloniais. Explora como essas práticas ancestrais, principalmente de mulheres negras e indígenas, enfrentam as múltiplas colonialidades do poder. Com base em perspectivas de Krenak e Nego Bispo, discute a reciprocidade entre humanos e meio ambiente. O estudo propõe reavivar os elos entre o corpo feminino e a natureza, desafiando a "abstração civilizatória" que dissocia a humanidade da terra.
Por fim, Rafael Cabral Sirimarco, mestrado da UFRJ, traduziu o ensaio de Dimitris Troaditis, intitulado: “IDEIAS E PRÁTICAS ANARCOSSINDICALISTAS EM CONSTANTINOPLA”. Dimitris explora o lançamento do jornal operário e revolucionário Ergatis em 1910, na Turquia. Editado por um grupo majoritariamente grego, o jornal tornou-se a voz do Centro Socialista da Turquia e posteriormente do Diethnis Panergatiki Enosi, uma organização anarcossindicalista. O texto também detalha as perseguições enfrentadas pelos editores e a continuidade das atividades revolucionárias, mencionando a disseminação das ideias anarquistas entre as comunidades armênia e grega na região.
Boa leitura a todos!
Wallace dos Santos de Moraes
Pamela Cristina de Gois

