À MESA DA CIVILIZAÇÃO
ALIMENTAÇÃO, SOCIABILIDADE E DISTINÇÃO NAS VIAGENS DE LONGO CURSO DA MARINHA DO BRASIL (SÉCULOS XIX–XX)
Resumo
O presente artigo analisa os discursos relacionados às práticas alimentares e comportamentos à mesa por parte de oficiais da Marinha do Brasil durante as viagens de longo curso realizadas na segunda metade do século XIX e na primeira década do século XX. A partir da leitura de relatos de viagem, relatórios oficiais, periódicos e memórias produzidos por comandantes e oficiais navais, discutimos em que medida banquetes, almoços, jantares e recepções a bordo dos navios constituíram-se em instrumentos centrais de representação diplomática e de afirmação de uma pretensa civilidade brasileira em contextos de encontros culturais. O artigo demonstra como o ato de comer extrapolava a satisfação de necessidades fisiológicas, convertendo-se em uma linguagem social marcada por gestos, rituais, escolhas alimentares e códigos de autocontrole. Nessas ocasiões, a alimentação operava como marcador simbólico de distinção social, permitindo aos oficiais brasileiros projetarem uma imagem de refinamento, ordem e pertencimento à modernidade ocidental, em consonância com modelos europeus hegemônicos. Assim, o estudo evidencia o papel das práticas alimentares na construção discursiva da identidade nacional e na atuação da Marinha de guerra como instrumento de diplomacia cultural em tempos de paz.
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