v. 6 n. 3 (2026): PEDAGOGIAS DECOLONIAIS E LIBERTÁRIAS: VÁRIAS REVOLUÇÕES EM UMA SÓ PELE
A revolução na Educação seria um caminho imprescindível para se combater o racismo no país. O enigma é que não há vontade política. Até foram criadas leis educacionais, como 10.639/03 e a 11.645/08, todavia, são inócuas, pois dependem de professores com formação antirracista e com conhecimento das histórias dos povos afro-pindorâmicos. O problema é que a universidade não aborda esses conteúdos como deveria, pois, também não possuem metas nem encaminhamentos para que possa formar seus próprios professores com orientação antirracita. Então, seja na Universidade, seja na escola, ou o professor vira um autodidata para compreender os mecanismos perversos do racismo junto aos governados, ou ele não tem condições de assumir uma tarefa para a qual não foi formado. Nesse sentido, será necessário criar institutos com formação étnico-racial para que os primeiros passos sejam dados e as crianças negras e pindorâmicas não sejam mais discriminadas em seus espaços.
O conceito de pedagogia da decolonialidade libertária de Pamela Cristina de Gois pode ajudar muito nesse processo. Confiamos plenamente no papel da educação na transformação em busca de igualdade e liberdade. Deste modo, o letramento racial não deve ser concebido como um projeto pontual, articulado apenas em determinadas datas — sobretudo em novembro e abril —, mas sim como uma pedagogia permanente, pois é transformadora. Nesse sentido, pensamos a READ como um espaço para pesquisadores publicarem suas análises e para que elas cheguem a novos educadores, seja da educação básica, seja do ensino superior, sempre cumprindo o papel da crítica autônoma e libertária.
Abrimos esta edição com o artigo Desenvolvimento Rural: Conflitos da Reforma Agrária no Haiti, das doutoras Renata Borges Kempf, Betina Muelbert, do doutor Julian Perez Cassarino da pesquisadora Idege Aimable. O estudo analisa a questão fundiária haitiana desde a independência, destacando reformas, disputas por terra e estratégias de resistência camponesa. Defende-se a urgência de políticas públicas que assegurem redistribuição de terras, crédito e desenvolvimento rural sustentável.
O artigo Decolonizar o Pensamento: As Vozes de Ailton Krenak e Daniel Munduruku, da doutora Erica Cristina Frau e do pesquisador Adaor Marcos de Oliveira, analisa o decolonialismo a partir das perspectivas indígenas brasileiras. O trabalho destaca cosmovisões, espiritualidade e defesa do território como fundamentos para superar estruturas coloniais e preservar a vida.
Apresentamos também o estudo Fontes Primárias, Território e Pesquisa Descolonial, de Angelo Pires Tavares e Cláudia Maria Serino Lacerda Muniz. A reflexão nasce de uma experiência em um CAPSi paranaense, problematizando o papel das fontes primárias na produção de conhecimentos territorializados.
A doutoranda Lídia Sarges Lobato, em seu aritgo intitulado Perspectiva Decolonial e Educação: Articulações Anticoloniais para o Currículo, analisa como o pensamento decolonial tensiona o currículo escolar. Ela defende uma pedagogia da insurgência que valorize saberes silenciados e promova uma educação intercultural capaz de superar estruturas coloniais.
A psicóloga e mestra Marcelle Xavier Correia Rodrigues, em seu artigo Branquitude e Exclusão: O Contrato Social na Análise de Charles Mills, escrito em língua inglesa, examina a obra O Contrato Racial. A análise evidencia como a raça estrutura a sociedade moderna, revelando exclusões e restrições impostas às pessoas não brancas. O estudo discute a ideologia da branquitude e seus mecanismos de perpetuação.
O artigo Nego Bispo e Mestre Ernestino Damasceno: A Brincadeira Defesa Particular – O Pau do Jucá, da mestranda Nádia Leripio Vianna, reflete a partir do documentário O Jucá da Volta sobre o contracolonialismo e a valorização das tradições quilombolas como fundamentos para uma sociedade mais justa e igualitária.
O mestrando Gabriel Henrique Stefanski, em Até que o Corte nos Separe: Um Paralelo Ontológico sobre a Necropolítica e o Retalhamento da Carne Animal, articula Achille Mbembe, Carol J. Adams e outros pensadores. O estudo revela como consumo e poder se entrelaçam, expondo práticas de violência e exploração.
Para finalizar esta edição, apresentamos o artigo Pensando a Linguagem por Meio da Obra Fanoniana, dos pesquisadores Hiasmim Silva, Vitor Reis e Débora Araujo. O estudo reflete sobre o poder da linguagem nas relações coloniais, a partir das análises de Frantz Fanon. A pesquisa evidencia como a imposição linguística atua como estrutura de dominação e propõe caminhos de análise histórica pela obra fanoniana.
Boa leitura, reflexão, mas nunca esqueçamos da ação direta! Saudações libertárias e decoloniais!
Pamela Cristina de Gois
Wallace de Moraes

